CIDADES LITERÁRIAS: A RECRIAÇÃO DO ESPAÇO URBANO

 

Níobe Abreu Peixoto – USP/FAPESP

 

Não haveria cidades sonhadas se não se construíssem cidades verdadeiras.

Osman Lins

 

Quando visualizamos a cidade literária do Rio de Janeiro das últimas décadas do século XIX, é muito provável que as imagens mais nítidas sejam aquelas que nos trazem de volta a velha capital desenhada por Machado de Assis em seus contos e romances. Até certo ponto, uma cidade poética. À noite, silenciosa e iluminada pelos lampiões a gás. Pela manhã clara, à espera de personagens como Aires, que para espairecer andam pelo Passeio Público e se achegam à borda do terraço para ouvir as ondas e vê-las bater e recuar. Por todo o dia, a cidade recebe nas ruas estreitas os freqüentadores costumeiros, que caminham com menor ou maior pressa, ou se locomovem utilizando coupés puxados por parelhas de cavalos cuidadosamente ajaezados e conduzidas por cocheiros barbeados e graves. Casarões com belas fachadas, jardins bem cuidados, chafarizes e igrejas ocupam o espaço da página escrita e das ruas do Catete, da Carioca, do Largo do Machado, da praia de Botafogo e do Flamengo. Esperamos pelo baile da Ilha Fiscal ao lado de Natividade, do romance Esaú e Jacó. Pensamos em gente bem assentada convivendo com as qualidades, defeitos e conflitos humanos; em rotina de vida, costumes tradicionais. Um Rio de Janeiro, cidade pequena, onde quase todos se conhecem; as mulheres, preferencialmente, dentro de suas casas e os homens a se encontrarem nas esquinas de ruas como a Direita (atual Primeiro de Março), Gonçalves Dias ou da Assembléia, para troca de confidências financeiras e segredos políticos. Lembramo-nos sobretudo da Rua do Ouvidor, o rosto eloqüente e que exprime todos os sentimentos e todas as idéias - aquela que resume o Rio, na fala do mesmo Machado no conto Tempo de Crise[1] - e nos balcões da Garnier, ponto de encontro dos intelectuais. Compramos o Jornal das Famílias. Ainda desconhecendo o porto e a movimentação que ele provoca, detemo-nos no Cais Pharoux, de onde partem os barcos para Niterói e os botes que transportam passageiros para os navios fundeados na Baía de Guanabara. Rubião, personagem de Quincas Borba, prestes a embarcar em um paquete, observa o mar imenso, o céu fechado e a solidão. Aqui e ali, vislumbramos marcas geográficas como a própria Baía, o Corcovado e o Morro do Castelo. Os bairros ganham tintas amenas: Cosme Velho, residência tranqüila do escritor; Glória, moradia prazerosa de Capitu e Bentinho, que fazem serão à janela mirando o mar e o céu, a sombra das montanhas e dos navios; Copacabana, do alto da ladeira, surpreende de forma agradável o mesmo personagem de dois romances, Aires; o bucólico bairro das Laranjeiras que, em Ressurreição, é o lugar de chácaras alegremente povoadas por aves exóticas e adaptadasà vida semi-urbana, semi-silvestre,em sintonia com o jeito da região. O distante Andaraí aparece em DomCasmurro como um lugar fora do tempo:

 

 Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira

 que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para

 outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi

 aquela semana na Tijuca.[2]

 

Se através de frases tão pensadas, até chegamos ao Engenho Novo, uma das paradas a caminho da gare Central do Brasil e à estação final de Cascadura, área que será procurada mais à frente pelos esquecidos, aqueles à margem do processo de modernização iniciado logo a seguir, na primeira década do século XX, a cidade literária de Machado sobrevive em nosso imaginário como pintura suave, embora esmaecida, pano de fundo para as histórias de seus complexos personagens.

Outra é a cidade desenhada por Paulo Barreto ou, para ser mais coerente com sua vida e obra, como ele mesmo intui de início e assume por toda a vida, João do Rio. Do Rio de Janeiro sisudo mas também complacente do Império, na literatura brasileira, passamos para uma cidade nervosa, agitada por transformações estruturais e que deseja ardentemente enquadrar-se dentro dos padrões europeus, de preferência parisienses. Na Primeira República ficcional, vivenciamos a cidade no burburinho das mudanças, com suas interrogações, acertos, indiferenças e no choque inevitável entre realidades díspares. Saímos de dentro das casas, intimidade protegida, e passamos para o espaço público dos salões refinados, das casas de espetáculos e das ruas agitadas, como a Rua do Ouvidor. No traçado de João do Rio, rua que é a fanfarronada em pessoa e a artéria da futilidade. Agora, faz-se necessário que compreendamos essas artérias em sua individualidade – uma individualidade que tem fisionomia e alma - e enquanto força criadora – A rua faz as celebridades e as revoltas. O construtor dessa outra cidade sabe da exigência de registros diferentes dos até então empregados:

 

É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos de flaneur e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar.[3]

 

A imagem criada em jornais e revistas e transportada para os livros reflete o atropelamento do velho ritmo pela chegada intempestiva do novo. As páginas estão repletas de exposições de arte, teatros, conferências. Temos até uma enquete com literatos, críticos e historiadores: O momento literário. Mendigos, imigrantes, trabalhadores das minas, funcionários do gás e da eletricidade e diversos outros pequenos profissionais andam pelas ruas impressas. O pária literário, pela primeira vez, como observa Antonio Arnoni Prado, assume sua posição de oprimido em contraponto a uma classe dominante decadente[4]. Nas voltas dos caminhos e nos jardins parasidíacos iluminados artificialmente, Capitu reconhece a sedução do canto da sereia, perdição do homem, e da dança de Salomé, que satisfaz, incita e acalenta[5]. Guiados pelo narrador distanciado, visitamos templos de seitas diversas, pensões sórdidas, casas suspeitas e penitenciárias. Vestimos a máscara transitória no Carnaval e nos deparamos com os mascarados de todo o ano. Esbarramos em personagens de sensibilidade exarcebada, em ruas apinhadas de tabuletas, por sua vez, verdadeiros tratados de psicologia urbana nas palavras do cronista, que interroga e responde: Que desejamos todos nós? Aparecer, vender, ganhar[6]. Nos corredores da Câmara, apuramos o olfato: Tudo cheira a interesse, a combinação, a negócio[7].

Conhecemos o cinematographo, freqüentamos o five o’clock tea e aplaudimos a revista musicada e os artistas estrangeiros. Passeamos pelo boulevard da Avenida Central admirando as fachadas dos prédios em estilos singulares.Acompanhamos a construção e somos convidados para a inauguração do Teatro Municipal. Inspecionamos suas instalações e nos extasiamos com seus mármores, bronzes, cristais e pinturas. Ansiamos pela abertura da saison. Atravessamos as ruas tomadas pela multidão e, bem de acordo com a vida vertiginosa do novo tempo, participamos junto com o personagem Jacques Pedreira, tipo do profissional que lucra sem uma atividade concreta, de corrida de automóvel, o grande animal da lenda, o monstro transformador, na Avenida Beira-Mar.

Adentramos pela cidade do vício e da graça, como a denomina Ribeiro Couto em 1924[8]; flanamos pelas ruas e becos escuros da sua face desprezada e nos salões iluminados da Frívola-City[9], abarrotados de falsos barões, príncipes e duquesas, encontramos a moldura perfeita para o personagem símbolo de um estilo de vida e de um estilo literário: o dândi.

No conjunto da obra, a cidade do Rio de Janeiro é a grande personagem. Sua história surge narrada em páginas excessivas, sob muitos títulos, em linguagens várias, estilo assimilado de Jean Lorrain e Oscar Wilde e assinada por diversos personagens coadjuvantes, tais como João do Rio, Joe, José Antônio José, Simeão, Claude, Máscara Negra etc. Ao lado desses pseudônimos, podemos acrescentar as criações de Godofredo de Alencar e do Barão André de Belfort. Todos esses nomes, máscaras de um mesmo homem, que sentiu a necessidade de recriar literariamente a cidade em seus vários aspectos, para preservá-la e a si próprio da passagem acelerada do tempo. Em vinte e dois anos, período transcorrido entre os primeiros artigos escritos para o jornal A Tribuna e para A Cidade do Rio, no ano de 1899, e os publicados em A Pátria, até 1921, muitas e irreversíveis são as alterações sofridas pelo espaço urbano e o cronista as registra.

Uma visualização mais nítida da cidade de João do Rio implica, portanto, num confronto primeiro entre a obra e o tempo histórico e literário do autor, uma vez que no conjunto dos livros publicados, peças representadas e em artigos dispersos em jornais e revistas, temos retratados situações e fatos, ideologias e pessoas reais as quais, ao lado de seres ficcionais, transformaram o meio urbano, social e cultural ou que, sem maiores compromissos, passaram por ele e com sua artificialidade definiram nossa belle époque.

A estética da época torna-se a estética do escritor. Se na Europa o art nouveau é também conseqüência de uma reação à mecanização acelerada, no Brasil, em que o processo industrial apenas engatinha, na época, o movimento é resultado de cópia de tendência estrangeira. Enquanto na Inglaterra, o dandismo aparecerá como resistência da aristocracia à crescente ascensão das massas, aqui, nação de nascente industrialização, o comportamento literário de João do Rio, parece-nos bem postiço. Para os anos da imitação de um modo de vida, um estilo artificial. A cidade importa um modelo de civilização e quem escreve importa o decadentismo europeu. O distanciamento e a superficialidade recobrem os passos do flâneur. O mundanismo atrai e a representação torna-se norma de vida pessoal e literária.

Na cidade do Rio de Janeiro, sob o governo de Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos promove o saneamento da cidade e apoia Oswaldo Cruz no combate à febre amarela e peste bubônica. Assume a modernização da Capital com a abertura da Avenida Central, construção de prédios públicos e com o implemento da reforma portuária. A Paris de Haussmann torna-se o modelo a ser perseguido. Na observação de Brito Broca, alguns anos antes o barão remodelara Paris tendo em vista objetivos político-militares e o plano do prefeito carioca teria uma orientação exclusivamente progressista de emprestar ao Rio uma fisionomia parisiense. Para os dirigentes do período, fica clara a necessidade de que o país tenha uma imagem civilizada, para que possa atrair o capital europeu e o americano. Os intelectuais, em sua maioria, apoiam a iniciativa. Olavo Bilac, em 1904, na revista Kosmos exalta as picaretas regeneradoras e a vitória da higiene, do bom gosto e da arte. O progresso empolga e provoca mudanças de hábitos. João do Rio descreve o período:

 

 Com uma vontade divina e uma força de semideus, o grande e inesquecívelPrefeito apertou na sua mão poderosa a velha cidade, rasgou-a,quebrou-a desfê-la por toda a parte e quando batalhões de operários em cada canto destruíam, no momento em que a cidade, uma imensa cidade de um milhão de almas, desaparecia numa nuvem de poeira, ele imaginou e realizou uma cidade inteiramente nova. Quando a nuvem de poeira se adelgaçou, avenidas asfaltadas, vastas praças, faziam do Rio de Janeiro uma pequena Londres sob o sol equatorial. Foi então que na febre das edificações, continuando Arthur Azevedo a campanha, Francisco Pereira Passos pensou no teatro. Era em 1903.[10]

 

 

No entanto, o bordão O Rio civiliza-se não é para todos. Mesmo sendo um entusiasta da modernidade que se instaura, o cronista carioca é uma voz que chama atenção para as misérias que ela provoca. A Avenida Central, os cinemas Pathé e Odeon, a Confeitaria Colombo, os pavilhões da Exposição Internacional de 1908, o teatro Municipal e os salões povoados de nobres recentes convivem lado a lado, no conjunto da obra, com os becos escuros, as choperias e os velhos cafés freqüentados pelos boêmios, com os dormitórios coletivos fétidos, o velho Mercado e o barracão das rinhas.

Os excluídos do processo sofrem o desemprego, quando profissões desaparecem. A demolição dos prédios velhos, que abrigavam centenas de famílias, implementa a alta dos aluguéis e expulsa um contigente de desabrigados para a periferia. Mendigos de todas as idades perambulam pelas ruas e trabalhadores submetem-se a condições humilhantes e salário inadequado. De um lado, a metrópole parisiense. De outro, a realidade colonizada.

A futilidade, a conveniência e o descompromisso dos políticos e dos mais bem postos econômica e socialmente podem ser observados, por exemplo, em Pall-Mall Rio.Inverno mundano de 1916,quadro de costumes sociais, da vida artística, literária, além de registros de natureza política.O leitor pode até se sentir irritado tal éo clima que se desprende do texto. Enjoa o desfile de nomes, a adjetivação exagerada, o estilo aparentemente sem compromissos e a descrição irreal dos ambientes. No entanto, é preciso que ele não se esqueça da tonalidade irônica do prefácio, para que o julgamento não seja de todo injusto. A cidade chamada de Frívola-City é assim definida pelo cronista mundano:

 

O Rio está diante de um espelho, com pó de arroz, cold-cream, carmim,khol, pata de lebre, três ou quatro costureiras no quarto, uma porção de fatiotas por cima das cadeiras e uma grande data de credores à porta.

Arriba-se, tagarela, e manda despedir as contas. Preocupação única: estarmos todos trinques à beirinha, conforme mandam os manuais de futilidade. [11]

 

À cidade literária do Rio de Janeiro Imperial de Machado de Assis contrapomos, sem nenhuma intenção avaliativa, a cidade ficcional anterior de Manuel Antônio de Almeida, retrato malicioso de outro período de mudanças (colônia /corte de D. João VI) e as recriações de Lima Barreto e de João do Rio. À cidade dos interiores domésticos, a cidade das esquinas, das ruas, das praças públicas, dos bares e dos salões abertos. As duas juntas a traçar o perfil de um povo e de um espaço que, até hoje, alimenta o imaginário e a imagem cultural do país.

Como em tantas outras recriações literárias – a Bahia de Jorge Amado, o Rio Grande do Sul de Érico Veríssimo, o Nordeste de Graciliano Ramos, Pernambuco de João Cabral, a Ouro Preto de Cecília Meireles, só para fazer algumas citações - a obra de João do Rio é mais um retrato literário de um país grande demais e rico demais em terras, gentes, sabores, cores, identidades, possibilidades. Mais ainda, generoso o bastante, para abrigar entre páginas muito bem traçadas, outras nem tanto, mas nem por isso menos verdadeiras.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. José Olympio, 1975.

CANDIDO, Antonio. Radicais de ocasião. In Teresina... Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980.

CARRER, Aline. Rio de Assis. Rio de Janeiro. Casa Palavra, 2000.

LEVIN, Orna Messer. Figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas, Unicamp, 1996.

MACHADO DE ASSIS. Obra completa. Nova Aguilar, 1992.

MAGALHÃES JÚNIOR, R. A vida vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1981.

NUNES, Mário. Quarenta anos de teatro. Rio de Janeiro. Serviço Nacional de Teatro, 1956.

PRADO, A. Arnoni. Mutilados da belle époque: notas sobre as reportagens de João do Rio.In: SCWARZ, R. Os pobres na literatura brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1983.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro, Sec. Municipal de Cultura, Dep. G. de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995.

____. Pall-Mall Rio. Inverno mundano de 1916. Rio de Janeiro, Villas Boas, 1917.

____. Cinematographo. Porto, Lello & Irmão, 1909.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: uma biografia. Rio de Janeiro, Top Books, 1981.

____. João do Rio: Catálogo Bibliográfico. Rio de Janeiro, Sec. Municipal de Cultura, Dep. G. de Doc. e Inf. Cultural, Div. de editoração, 1994.



[1] Machado de ASSIS. Tempo de crise. In: Outros contos. Obra completa. v II.Nova Aguilar, 1992. Pp. 783/793.

[2] Id. Op. cit. Dom Casmurro. p.908.

[3] João do RIO. A rua. In A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro, Sec. Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995. P. 5.

[4] A. Arnoni PRADO. Mutilados da belle époque. In SCWARZ, R. Os pobres na literatura brasileira. SP, Brasiliense, 1983.

[5] João do RIO. Carta- oferta. In A mulher e os espelhos. Rio de Janeiro, Sec. Mun. De Cultura, Dep. Geral de Doc. Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995. Pp. 15/17

[6] Id. Tabuletas. In A alma encantadora das ruas. Op. cit. , P.55.

[7] Id. No país dos gênios. In Cinematographo. Porto, Lello & Irmão, 1909. P.20

[8] Ribeiro COUTO. In MAGALHÃES JÚNIOR, R. A vida vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1981.

[9] João do RIO publica sob o pseudônimo JOSÉ ANTONIO JOSÉ , Pall-Mall Rio. Inverno mundano de 1916. Rio de Janeiro, Villas Boas, 1917. No prefácio, a cidade do Rio de Janeiro é caracterizada pelo autor: ...pela pletora vital, há uma outra cidade cujo nome devia ser Frívola-City, porque nunca as insignificâncias fizeram, como nessa cidade, o fundo das preocupações, o elemento das palestras e das discussões, o sangue alimentar das camadas sociais.

[10] João do RIO. Teatro Municipal do Rio de Janeiro. 1913. Ed. Fac-símile.Rio de Janeiro, Salamandra/ Liquid Carbonic Indústrias S/A, 1987. Pp. 13/14.

[11] Id. Pall-Mall Rio. Inverno mundano de 1916. Op.cit.